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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

'O Globo' distorce Wikileaks para atacar Reforma Agrária

Por Clifford Andrew Welch
Prof. Dr. Ajunto do Curso de História
da Universidade Federal de São Paulo

Demorou. Em abril de 2007, pedi pessoalmente uma cópia do relatório do investigador dos Estados Unidos da América que me entrevistou sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Pedi de novo por email em setembro, mas nem resposta recebi, muito menos o documento.

Foi o grupo Wikileaks que recentemente revelou os resultados dos andamentos do agente estadunidense no Pontal do Paranapanema, São Paulo, e meu nome estava no meio das reportagens que saíram nos jornais nos dias 19 e 20 do mês atual.

Como coordenador ajunto do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária (Nera) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em abril de 2009, confesso que estava pouco animado com a visita do Vice Consul Benjamin A. LeRoy do Consulado Geral dos EUA, em São Paulo, quando nos pediu uma hora para “conhecer o trabalho do Nera e aprender um pouco mais sobre reforma agrária e movimentos sociais de sem-terra,” como nos escreveu a assistente de assuntos políticos do consulado, Arlete Salvador.
Como historiador especializado em estudos da política externa dos EUA na América Latina, já conhecia figuras como LeRoy e seus relatórios. Eram fontes importantes para entender a natureza da interferência do império em sua esfera de influência. Agora o disco virou e era eu a fonte. Fiquei assustado com os erros do relatório de Benjamin, a distorção dos fatos interpretados pelo cônsul-geral Thomas White e, mais uma vez, preocupado com o método empírico do historiador, que depende demais em documentos oficiais e notas jornalísticas.

Faz sentido confiar em um investigador que nem sabe onde estava ou com quem estava falando? O despacho que relata a investigação de Benjamin usa a sigla Uneste no lugar da sigla Unesp e dá como a minha afiliação institucional a Universidade de Michigan, ambas afirmações equivocadas.

Pior, ainda, é a fala atribuída a mim por Benjamin e relatado pelo White que ficou como manchete no Globo: “MST teria espiões no Incra para orientar invasões”. Nunca falei e jamais falaria algo assim. No primeiro lugar, a palavra “espião” é invenção do Globo, porque não aparece nos relatos diplomáticos disponibilizados pelos jornais.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Globo x Wikileaks

Após a divulgação do vazamento sobre a entrega do pré-sal aos EUA por parte de José Serra, a Globo preferiu dar destaque a outros assuntos no Bom Dia Brasil de hoje, 14/12. O blog do Luiz Nassif apresenta:

No Bom Dia Brasil de hoje, a chamada prometia "novas revelações" dos documentos da Wikileaks. O que a Globo nos entregou foi uma reportagem que parecia querer colocar um ponto final no caso. E, claro, nenhuma, nem umazinha palavra sequer sobre as negociações do Pré-Sal. Já sobre a admiração do filho de Kim Jong-Il por Eric Clapton, isso sim mereceu preciosos segundos do noticiário...

Além disso, pouco ou nada se refere a detalhes do caso de Assange, como as provas contundentes da sua inocência, veiculadas na imprensa de vários locais. Nós as traduzimos e divulgamos aqui.

A jornalista da Globo e integrante do Bom Dia Brasil, Miriam Leitão, publicou recentemente em seu blog uma reportagem sobre o Wikileaks. Intitulado A esfinge, o texto diz:

Foram muitos os fatos relevantes divulgados nos últimos anos pelo jornalismo investigativo. O trabalho desses profissionais sempre será relevante, tanto na procura de suas próprias pautas, quanto no esforço de conferir e confirmar informações divulgadas por organizações especializadas como a Wikileaks. Então, a resposta é que a ação da entidade de Julian Assange é de certa forma jornalismo, mas não o substitui, nem desobriga a imprensa de seu trabalho.

(...)

O que a repórter parece desconhecer é que o Wikileaks tem na sua equipe jornalistas, inclusive, e fez em poucos anos um trabalho investigativo que supera o da mídia mundial em toda a sua existência. Prova disso é que, agora, o The Guardian, Die Spiegel, The New York Times, El País e a própria Globo é que recorrem ao Wikileaks. Não o contrário. Seria estupidez e/ou mentira afirmar que os documentos autênticos que o Wikileaks divulga sejam menos importantes que a análise que qualquer jornalista possa fazer deles. Daí dizer que esses mesmos documentos falem a verdade ou não, cabe ao julgamento de todos que agora têm acesso a eles. Não só o The New York Times, a Globo, o SBT, a Record... Todos e todos nós. Então não há motivos para ocultá-los ou diminuí-los. Ou há?

O sociólogo americano Stephen Duncombe disse em entrevista à CartaCapital: O Wikileaks não precisa do New York Times. O Times é que precisa do Wiki.

Da mesma forma, temos agora a chance de mostrar que o Brasil não precisa da Globo & cia. A Globo é que precisa do Brasil.

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